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A manobra e a UE: o que a Itália arrisca com um déficit de 2,4%

A manobra verde-amarela corre o risco de ser rejeitada por Bruxelas ainda antes de chegar ao Parlamento: seria a primeira vez na história da Zona Euro assustador especialmente pelo possível efeito nos mercados - VÍDEO.

A manobra e a UE: o que a Itália arrisca com um déficit de 2,4%

O que acontecerá se a Comissão Europeia rejeitar a lei orçamentária italiana? Com toda a probabilidade, Bruxelas iniciará um processo de infração contra nosso país por déficits excessivos. Salvo reveses improváveis, esse parece ser o único resultado possível à luz do Documento Econômico e Financeiro (Def) aprovado na noite desta quinta-feira pelo governo verde-amarelo. O texto, que contém o quadro contabilístico da manobra, pretende aumentar o défice/PIB até 2,4%. E não apenas no próximo ano, mas também em 2020 e 2021.

AS REGRAS EUROPEIAS

Desta forma, a Itália mantém-se dentro dos parâmetros de Maastricht – que fixou o teto do défice em 3% – mas ainda viola as regras europeias, que desde 2012 com o Pacto Fiscal também exigem que o défice se aproxime de zero. O objetivo é reduzir a dívida de países potencialmente capazes de aniquilar o euro: uma lista na qual a Itália ocupa o primeiro lugar, dada a sua relação dívida/PIB superior a 130%.

OS NÚMEROS DA ITÁLIA E A COMPARAÇÃO COM A FRANÇA

Tratado em mãos, em 2019 o nosso país deverá ter reduzido o défice estrutural (ou seja, o valor líquido do ciclo económico e das medidas pontuais lançadas pelo Governo) em 0,6%, igual a 10,8 mil milhões em cortes. Uma correção exigente (e improvável), mas as regras europeias também fornecem um salva-vidas: o processo por infração só é acionado se a redução não ocorrer. Ou seja, bastou uma melhora de 0,1% para que Bruxelas se limitasse a um simples apelo à Itália (como quase sempre aconteceu nos últimos anos). E para corrigir o déficit estrutural italiano de 0,1% teria bastado não empurrar o déficit/PIB para além de 1,6%, coincidentemente o patamar no qual o ministro da Economia, Giovanni Tria, insiste há semanas.

Pelo mesmo motivo, a comparação com a França proposta nos últimos dias por Di Maio não se sustenta: o déficit de 2,8% anunciado por Paris, embora superior ao da Itália, implica uma redução do déficit estrutural francês de 0,3% do PIB e portanto, respeita os limites do Pacto Fiscal.

Voltando à Itália, no final o Tesouro saiu derrotado em todos os aspectos, não conseguindo sequer chegar a um compromisso de 2%, o que talvez tivesse contido a cólera de Bruxelas. Prevaleceram os pedidos da Liga e sobretudo do Movimento 5 Estrelas, que exigia 10 bilhões para implementar a renda básica já em 2019. Resultado: o déficit é multiplicado por três frente aos 0,8% com os quais o governo Gentiloni havia se comprometido.

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ADVERTÊNCIAS DA COMISSÃO

Como as relações entre a Itália e a Europa mudarão neste momento? Para já, a Comissão ganha tempo: “Vamos avaliar os projetos de planos orçamentais para 2019 de todos os Estados-Membros da zona euro, incluindo a Itália, nas semanas seguintes à sua apresentação, que deve ocorrer até 15 de outubro e antes do final de novembro, ” disse um porta-voz do executivo da UE.

Até o Comissário para os Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, prefere manter-se cauteloso: "Não é do interesse de ninguém abrir uma crise entre a Comissão e a Itália, porque a Itália é um país importante na zona euro". Ao mesmo tempo, o ex-ministro francês observou que “o fato de a Itália não respeitar as regras e não reduzir a dívida, que continua explosiva, também é contra o interesse de todos. Quando um país se endivida fica empobrecido, recorrer ao endividamento é uma medida que sai pela culatra para quem o decidiu”.

A RÉPLICA ITALIANA

Mas o Governo italiano não parece inclinado a reconsiderar: "Se Bruxelas rejeitar a Lei do Orçamento, vamos continuar - disse o Vice-Primeiro-Ministro da Liga do Norte, Matteo Salvini - Pensamos que vamos trabalhar bem para o crescimento do país e restaurar a confiança, esperança, energia e Trabalho. Estou feliz com o que fizemos nesses quatro meses e com o que faremos nos próximos quatro anos. Também vamos explicar aos comissários ”.

Di Maio faz saber que quer “interlogar, não entrar em confronto com os mercados e os parceiros da UE”, mas ao mesmo tempo não deixa espaço para qualquer hipótese de revisão do défice.

PROCEDIMENTO DE INFRAÇÃO E REAÇÃO DO MERCADO

Se as "explicações" e "interlocuções" não bastarem, a manobra verde-amarela será a primeira na história da Zona Euro a ser rejeitada pela UE ainda antes de chegar ao Parlamento nacional. Nesse momento, as portas de um se abrirão para o nosso país procedimento por infração, que chegará o mais tardar nos primeiros meses de 2019 e poderá resultar em penalidades financeiras.

Mais do que as consequências diretas de uma possível punição europeia, porém, o que preocupa é o reflexo que uma batalha Roma-Bruxelas produziria nos mercados. Não só pela eventualidade de um novo ataque especulativo à dívida italiana por parte dos fundos anglo-saxões, mas também porque um aumento do spread na zona dos 350-400 pontos base aumentaria de tal forma o custo dos juros dos títulos do Estado de modo a absorver boa parte dos recursos liberados com a superação do déficit. Em outras palavras, as novas dívidas seriam usadas para saldar as antigas.

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