Desde que o capitalismo nasceu, ele foi criticado como fonte de desigualdade, instabilidade, alienação de homens forçados a uma competição "antinatural". Prateleiras inteiras de qualquer biblioteca doméstica contêm volumes que questionam o futuro do capitalismo. Não apenas Marx, mas também Colletti e Napoleoni se perguntaram nos anos setenta sobre o futuro do capitalismo (colapso ou desenvolvimento?) Muitos não tiveram o coragem de falar de "bom capitalismo" como fez Stefano Cingolani no livro que acaba de chegar às livrarias editado pela LUISS University Press, claramente legendado "porque o mercado nos salvará".
A crise financeira de 2008-2009 ainda não foi totalmente absorvida não tanto do ponto de vista do crescimento do PIB, mas pelo trauma psicológico que causou ao varrer tantas certezas sobre o futuro, gerando desconfiança no mercado e na globalização que fez tantas promessas que se mostraram ilusórias quando testadas . Para aumentar a dose, ela interveio a epidemia do Coronavírus que expôs a incapacidade das nossas estruturas sociais para prevenir e combater um evento extraordinário de forma eficaz e imediata. O resultado foi um pedido generalizado ao poder político dos antigos Estados-nação (o único que ainda existe, embora um pouco amassado) por proteção, controle de fronteiras, limites à globalização para evitar a redistribuição do trabalho entre várias áreas geográficas, o retorno do público à gestão direta dos negócios para, assim, salvá-los da concorrência considerada excessiva e, portanto, destrutiva, e o aumento da função fiscal para combater as desigualdades por meio da distribuição de subsídios.

Em primeiro lugar, a análise de Cingolani permite refutar os clichês mais difundidos mas também mais errado, tanto político quanto econômico. Sob o primeiro aspecto, por exemplo, pode-se mostrar que i regimes autoritários ou aquelas dominadas por forte nacionalismo, como na Grã-Bretanha, EUA ou China, eles não têm sido mais eficientes do que as democracias liberais na luta contra a epidemia, e de fato cometeram erros muito grandes com consequências trágicas para a população, como por exemplo no Brasil ou na própria Rússia.
Do lado económico, todas as receitas de encerramento autárquico, e de intervenções massivas do Estado na gestão dos negócios, já demonstraram no passado que dificultar o desenvolvimento da renda dos cidadãos, dando segurança em troca de um empobrecimento progressivo do país e dos indivíduos, como aliás acontecera na URSS comunista. Corre-se o risco de se criar, como aconteceu no século passado, um "capitalismo político" que, com a desculpa de oferecer barreiras protetoras contra a incerteza dos mercados, questiona também as formas de democracia liberal que, ainda que entre erros e imperfeições, garantiram amplas liberdades individuais e, pelo menos até poucos anos atrás, um progresso econômico e social sem precedentes na história da humanidade.
Agora certamente a globalização e certas formas de capitalismo baseadas em multinacionais com orientação gerencial enfrentaram problemas consideráveis. É difícil dizer se as crises resultaram do excesso de globalização ou da falta dela devido ao contraste entre as leis que permaneceram majoritariamente nacionais e a falta de padrões globais para dar regras às empresas multinacionais. Mas o que é certo, e a história o provou, é que o maior valor do capitalismo é sua grande capacidade de renovação, enfrentam a destruição criativa, que abandona velhas empresas e velhos esquemas de gestão, em favor de novos métodos de produção e vendas. As referências culturais mudam, a demanda do consumidor muda e nasce imediatamente quem é capaz de captar a novidade. O estado gestor é por natureza conservador: tende a preservar o antigo, a satisfazer os pedidos de estabilidade vindos da população, em detrimento do novo, de gerir a transição de pessoas dos antigos empregos para os novos.
Encontramo-nos hoje entre um senso comum que perante o perigo tende a refugiar-se em fortalezas consideradas robustas e uma realidade de factos de onde se deduz que só o capitalismo é capaz de se adaptar rapidamente às novas demandas sociais e econômicas continuando a assegurar a sobrevivência da democracia liberal e ao mesmo tempo um crescimento adequado da economia. É claro que, quando se tem medo, o primeiro impulso é agachar-se num local bem protegido. Mas como ensinam os melhores manuais da arte da guerra, “a melhor defesa é o ataque”. E isso se não conseguirmos encontrar uma estrutura econômica e política capaz de acompanhar e apoiar a transformação da economia e da cultura já existente antes do vírus, então estaremos realmente condenados ao declínio que os bloqueios defensivos não só não poderão evitar, mas que serão de fato os fatores decisivos para acelerar o declínio.
No final, Cingolani faz com razão a pergunta sobre quem será o novo condutor desta transformação que aliás já existe mas que agora deve correr mais. Qual grupo social assumirá a liderança do processo, puxando à força toda a sociedade, mesmo as partes mais turbulentas. Ainda não há uma resposta certa para essa pergunta. No entanto, vislumbram-se algumas tendências que podem liderar a renovação: não se trata de uma nova e solitária direção política, ou de um grupo social revolucionário que conquista preeminência, mas de um processo horizontal generalizado que começa de baixo, mas que, a partir de uma rede cada vez mais densa de conexões, deve mover toda a sociedade na direção certa. É um pouco um regresso à concertação entre o governo e os parceiros sociais, como muitos desejam. Pode ser positivo, desde que os parceiros sociais sejam capazes de ultrapassar os seus fechamentos empresariais e pensar em termos estratégicos, mostrando aquela visão de futuro que todos clamam, mas que poucos estão dispostos a aplicar nos seus próprios assuntos.
