Entrar na onda dos vencedores, reais ou presumidos, e abandonar aqueles considerados em declínio sempre foi um esporte amplamente praticado. Basta ver o que está acontecendo Brasil onde as sondagens prevêem uma maioria relativa para o partido de Marine Le Pen, segundo lugar para Frente Popular da esquerda e a queda dos macronistas para o terceiro lugar. Contudo, num sistema de duas voltas a média dos votos não faz muito sentido e os votos nem sempre equivalem aos assentos. No entanto, tudo pode ser dito sobre a surpreendente dissolução do Parlamento e a súbita convocação de novas eleições políticas para o Presidente Emmanuel Macron exceto que foi uma escolha sem sentido. Arriscado sim, mas insensato não. O objectivo do Chefe de Estado é fazer com que os franceses enfrentem as suas responsabilidades face ao pesadelo de um país nas mãos de extremistas de direita pró-Putin, mas é também desafiar os lepenistas, expondo as suas fragilidades, sejam elas conquistam a maioria relativa no novo Parlamento e se dão o grande passo para alcançar a maioria absoluta. No primeiro caso Jordan Bardela, a inexperiente estrela em ascensão da direita do RN (partido de Marine Le Pen), que “Le Monde” define desdenhosamente como um robô, ele se verá formando um governo minoritário à mercê das ondas ou um governo de difícil coexistência numa fase económica e social muito complicada para a França, onde muitas das promessas demagógicas da extrema direita lepenista se derreterão como neve ao sol. No caso improvável de o partido de Marine Le Pen obter a maioria absoluta no Parlamento, os obstáculos que a extrema direita encontrará no seu caminho não serão menos grandes. Por pelo menos duas razões: primeiro porque a Constituição ainda confia os Negócios Estrangeiros e a Defesa ao Presidente da República. Ao Governo Bardella ficaria o Interior e a Economia que - aqui está a segunda dificuldade - é no entanto monitorizada por um implacável convidado de pedra, representado pelos sempre temíveis mercados financeiros que, tanto com o declínio marcante da saco que com o aumento do Pasta de aveia dos últimos dias, já deixaram claro que não permanecerão inertes diante das artimanhas e dos erros dos lepenistas. Mesmo ao custo de causar a crise financeira em França. Paris pagaria caro pela vitória dos lepenistas, que certamente enfrentarão dificuldades de Macron e que correriam o risco de chegar mais desgastados do que nunca às eleições presidenciais de 2027, aquelas em que Le Pen vence ou sai definitivamente de cena. Portanto, quem ri por último ri melhor, mas a aposta de Macron é tudo menos um golpe de loucura, mesmo que a Frente Popular não o tenha percebido e o pensamento correcto seja sempre o aliado inconsciente do maximalismo.
Macron, a aposta calculada de eleições antecipadas e as dificuldades que o presidente enfrentará em Le Pen
A decisão surpresa do presidente francês Macron de dissolver o Parlamento e convocar eleições gerais antecipadas é tudo menos um golpe de loucura e pode expor as contradições da estratégia populista e pró-Putin do partido de Le Pen
