comparatilhe

FIRSTonline Banner

Sapelli: "A abertura de Merkel aos refugiados é um movimento que mostra a bela face da Alemanha"

ENTREVISTA COM GIULIO SAPELLI - "A abertura de Merkel aos refugiados foi um movimento tático para remediar o passo em falso dado com a menina palestina, mas dessa forma a chanceler se fortaleceu politicamente ao interpretar a verdadeira face da Alemanha" - Por que, porém, sim apenas para Sírios? – “Itália está mais aberta” – A situação na Síria é devastadora

Sapelli: "A abertura de Merkel aos refugiados é um movimento que mostra a bela face da Alemanha"

"Sim, eu esperava que Merkel se abrisse para os refugiados porque ela foi uma tática inteligente e teve que recuperar terreno após o passo em falso que deu em julho com a garota palestina", mas os efeitos de sua decisão improvisada também podem ser perturbadores no Leste Europa e provocaram a resposta unilateral da Inglaterra e da França na Síria. Giulio Sapelli, professor de História Econômica na Universidade Estadual de Milão e intelectual de raça pura, é como sempre irreverente e contra a maré. Ele vê os aspectos positivos da reviravolta de Merkel, mas também compreende seus limites, como explica nesta entrevista ao FIRSTonline.

Professor Sapelli, o senhor esperava a virada anunciada ontem por Angela Merkel sobre a abertura das fronteiras alemãs aos migrantes?

Sim, eu esperava isso. Angela Merkel é uma estrategista habilidosa e teve que se recuperar após o passo em falso cometido em julho com a garota palestina. As terríveis sentenças proferidas pelo chanceler naquele dia tiveram um efeito muito sério na opinião pública alemã. Merkel subestimou a reação de uma Alemanha que ela não conhece, a Alemanha de Bonhoeffer, a Alemanha de Goethe. Apesar de ser uma pessoa muito culta, não levava em conta a essência de um país que muitas vezes não percebemos de fora, acostumados como estamos nos últimos anos a ver a cara da Alemanha dominadora, aquela que tem causado medo e continua a assustar o mundo.

Para ela, sua experiência pessoal como filha de um pastor luterano nascido na Alemanha Oriental também influenciou na decisão de abrir as fronteiras, ou foi sua intuição política que a fez entender que era hora de abrir e resumir também sobre esse tema a liderança europeia?

O fato de o pai de Angela Merkel ser um pastor luterano não tem absolutamente nenhum efeito, pelo contrário. Seu pai era um fervoroso defensor do regime soviético, nunca se opôs a ele e colaborou com ele por muito tempo. Merkel foi de fato a única filha de um pastor luterano a ser admitida na universidade. A do pai é apenas um conto de fadas contado por jornalistas ignorantes. Mas essa decisão nem vem de uma intuição política, é apenas um movimento tático. A chanceler precisava se proteger dos falcões de direita e por isso buscou o apoio da opinião pública alemã que, ao contrário do que se pensa, não é nada conservadora. Esse apoio a fortalece politicamente e lhe dá nova vida para continuar seu mandato.

Podemos traçar um paralelo histórico entre o eixo Gorbachev-Wojtyla e o eixo nascido entre Angela Merkel e Bergoglio que abre as portas aos migrantes?

Na minha opinião não, também porque não existe um eixo real entre o Papa Francisco e Angela Merkel. Bergoglio se dirige ao mundo inteiro com suas palavras e ações, o chanceler fala à opinião pública alemã. Pense também na decisão de acolher apenas os sírios. É uma escolha que tem algo de racista. Por que apenas sírios? Porque são os mais instruídos, os mais ricos, os mais seculares.

A Itália foi muito melhor nisso, muito mais aberta e muito mais solidária, especialmente no Sul. Angela Merkel, por outro lado, foi ultrapassada pela grande solidariedade de uma Alemanha que não se via, que a Europa não percebia. A do chanceler é uma política perigosa a nível continental porque perturba a Europa, mas é uma política que mostra a bela face da Alemanha.

A Alemanha anunciou que receberá 500 migrantes por ano. Você acabou de mencioná-lo, o que você acha que os efeitos dessa escolha serão no nível econômico-social e no nível político alemão e europeu?

No que diz respeito aos alemães, a Alemanha é uma sociedade velha, carece de trabalhadores qualificados e acolher os sírios só ajudará fornecendo uma nova força de trabalho ao longo dos anos. No nível europeu, no entanto, os efeitos podem ser negativos. A Inglaterra e a França responderam a essa política improvisada da pior maneira possível: bombardeando a Síria. Este é o efeito absurdo criado pela política de Angela Merkel. Ele não consultou ninguém antes do anúncio, não pensou no que isso poderia causar. Além disso, os atentados foram decididos sem um acordo com a Rússia porque se acredita que tudo pode ser resolvido sem Assad. Mas a situação síria não pode ser resolvida sem negociar com os russos e com Assad. Esta escolha unilateral corre o risco de ter efeitos devastadores internacionalmente.

No que diz respeito à Europa, porém, este é um movimento que desintegra a União. Os principais adversários da Alemanha agora (Hungria, Polônia, etc.) são seus principais aliados na política deflacionária que destruiu o continente: o bloco Teutônico-Báltico. De aliados a adversários e as causas são duas. Deixe-me dar o exemplo da Polônia, os poloneses estiveram sob o calcanhar comunista e não querem cair sob o alemão. Merkel subestimou a complexidade político-cultural da Polônia. Os poloneses querem ser independentes e o chanceler pagará caro por isso. Ela não agia como uma líder. Sua decisão me lembrou Churchill: Angela Merkel é uma política porque só pensa no amanhã, mas um verdadeiro estadista pensa no futuro.

Comente