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Troia chega a Roma: o mito que continua a fundar o Mediterrâneo.

No Coliseu, uma ambiciosa exposição questiona o mito das origens. Entre arqueologia, política e memória, a história de Eneias retorna para nos falar do presente. De 12 de junho a 18 de outubro de 2026.

Troia chega a Roma: o mito que continua a fundar o Mediterrâneo.

Existem exposições que exibem objetos e exposições que exibem ideias. "Troia e Roma: Mitos, Lendas e Histórias do Mediterrâneo Antigo", realizada no Parque Arqueológico do Coliseu.A exposição, sem dúvida, pertence à segunda categoria. Porque seu verdadeiro tema não é Troia, nem mesmo Roma, mas a própria construção da memória cultural: a maneira como uma civilização imagina seu passado para legitimar seu presente. Por pelo menos dois séculos, a arqueologia ocidental tem se dedicado a Troia como um lugar físico, uma cidade a ser escavada, medida e catalogada. Das campanhas de Heinrich Schliemann às mais recentes pesquisas na Anatólia, a pergunta sempre foi a mesma: quanta história está contida na Ilíada? A exposição romana, no entanto, eleva a questão a um patamar mais interessante. Não se trata tanto de saber se a Guerra de Troia realmente aconteceu, mas sim de compreender por que sua narrativa continua a gerar significado há três mil anos.

Um projeto internacional

A primeira impressão é a de um projeto de exposição de grande alcance internacional. Achados de museus italianos e turcos, materiais arqueológicos, obras de arte, reconstruções e equipamentos multimídia compõem uma vasta narrativa que atravessa todo o Mediterrâneo.A ambição é clara: transformar o visitante de um simples observador de antiguidades em testemunha de uma longa história de migrações, apropriações culturais e construções identitárias. Mas a verdadeira qualidade da exposição emerge sobretudo quando abandona a dimensão didática para abordar uma questão mais complexa: a relação entre mito e poder. A ideia de que Roma descende de Troia através da figura de Eneias é, de fato, uma das invenções políticas mais extraordinárias da história. Não se trata simplesmente de uma lenda. É um artifício cultural que permitiu aos romanos inserir-se numa genealogia heroica capaz de conectar o seu destino ao do mundo grego. Na Eneida, Virgílio realiza uma operação que hoje chamaríamos de "construção nacional": constrói uma narrativa de origens destinada a tornar-se o alicerce simbólico do império. A exposição tem o mérito de destacar essa dinâmica sem reduzir o mito a mera propaganda. Eneias não surge como uma simples ferramenta ideológica. Em vez disso, torna-se a figura arquetípica do exilado, o migrante forçado a atravessar o mar em busca de uma nova pátria. Nesse sentido, o herói troiano adquire uma contemporaneidade surpreendente. Observando os artefatos que testemunham a circulação de imagens, cultos e histórias entre o Oriente e o Ocidente, compreendemos que o Mediterrâneo antigo era muito menos segregado do que costumamos imaginar. A exposição sugere uma tese implícita, porém importante: as identidades culturais não nascem da pureza, mas da contaminação.

É aqui que o projeto curatorial alcança seu melhor resultado.

Há algum tempo, um segmento da arqueologia museológica sofre de uma espécie de complexo enciclopédico. Acumula objetos acreditando que quantidade equivale a conhecimento. "Troia e Roma", por outro lado, busca utilizar o artefato como ferramenta narrativa. O objeto não é o fim, mas o meio. Uma cerâmica, uma estátua, um fragmento arquitetônico tornam-se capítulos de uma narrativa mais ampla sobre a transmissão de mitos. Em alguns trechos, o projeto da exposição parece ceder à tentação do espetáculo contemporâneo. A presença de instalações cenográficas em grande escala e reconstruções imersivas por vezes cria atrito com o poder silencioso dos materiais arqueológicos autênticos. Essa tensão permeia muitas exposições contemporâneas: por um lado, a necessidade de engajar o público; por outro, o risco de transformar a história em entretenimento. A exposição mantém uma profundidade intelectual considerável e jamais abandona a complexidade. De uma perspectiva crítica de arte, talvez o aspecto mais interessante seja outro. "Troia e Roma" demonstra como a fronteira entre arqueologia e arte é muito menos nítida do que se poderia imaginar. Os objetos expostos não são apenas documentos históricos; São também imagens que ajudaram a moldar o imaginário europeu. As figuras de Aquiles, Heitor, Eneias, Helena e Príamo pertencem tanto à história da arte quanto à história da literatura. Elas continuam a ressurgir na pintura renascentista, no neoclassicismo, no cinema contemporâneo e até mesmo na cultura popular.

Nesse sentido, a exposição fala sobretudo do presente.

Troia é apresentada não como uma civilização perdida, mas como um lugar mental que continua a gerar interpretações. O visitante sai com a sensação de que cada época construiu sua própria Troia: a dos antigos gregos, a dos romanos, a dos humanistas, a dos arqueólogos do século XIX e, finalmente, a nossa. Esta é provavelmente a reflexão mais eficaz de toda a jornada. As civilizações não sobrevivem porque preservam seus monumentos; sobrevivem porque continuam a contar suas histórias. E a jornada de Eneias, atravessando o mar carregando consigo os restos de uma cidade destruída, acaba por se revelar uma metáfora da própria cultura: um legado frágil, continuamente reinventado, transmitido de geração em geração, transformando-se sem jamais desaparecer. Ao final da visita, compreende-se que O verdadeiro protagonista da exposição não é Troia, nem Roma. É o mito. E sua capacidade inesgotável de moldar a história.

Uma exposição culta e ambiciosa que transcende os limites da arqueologia tradicional para questionar a relação entre memória, identidade e poder. Algumas concessões à espetacularização não comprometem um projeto de grande qualidade científica e cultural, destinado a ser um dos eventos mais importantes do calendário de exposições de Roma.

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